“Deus é bom e o diabo também não é mau”: demônios familiares em As pelejas de Ojuara, de Nei Leandro de Castro / “God is great and the devil is not that bad”: familiar demons in As Pelejas de Ojuara, by Nei Leandro de Castro

Carolina de Aquino GOMES (UFPI)

Resumo


RESUMO: O diabo não é tão feio como pintam, diz o ditado, em que vemos refletido o imaginário popular acerca do demônio no Nordeste nas histórias encontradas em folhetos de cordel. Em As pelejas de Ojuara (2006) vemos a ação direta de diabos e demônios familiares, que tanto auxiliam quanto dificultam a jornada do herói nordestino. Buscamos, no presente artigo, apresentar como os demônios familiares se destacam como facilitadores da jornada do herói, contrariando o sentido comumente atribuído ao diabo. Para tanto, partindo dos estudos de Pontes (1979), Souza (2009) e Muchembled (2001) entendemos como o diabo assumiu essa face mais amena na cultura popular. Assim, afastando-se da dicotomia entre o bem e o mal, o diabo se aproxima ainda mais do humano, deixando de ser a fonte de todo o mal, ressaltando a sua ambiguidade presente na cultura popular.

PALAVRAS-CHAVE: Cordel. Demônios familiares. Hibridação cultural. Nei Leandro de Castro. Cultura popular.

 

ABSTRACT: The devil is not as ugly as they paint, the saying tells, in which we see reflected the popular imaginary about the devil in the Brazilian’s Nordeste in the stories found in cordel pamphlets. In As pelejas de Ojuara (2006) we see the direct action of devils and familiar demons, who both help and hinder the journey of the hero of the Nordeste. We seek, in this paper, to present how family demons stand out as facilitators of the hero's journey, countering the meaning commonly assigned to the devil. For that, starting from the studies of Pontes (1979), Souza (2009) and Muchembled (2001), we understand how the devil took on this kinder face in Brazilian’s popular culture. Thus, moving away from the dichotomy between good and evil, the devil comes even closer to the human, stop being the source of all evil, emphasizing his ambiguity present in the popular culture.

KEYWORDS: Cordel. Family demons. Cultural hybridity. Nei Leandro de Castro. Popular culture.

 

RESUMEN: El diablo no es tan feo como pintan, dice el dicho, en el que vemos el imaginario popular sobre los demonios en el noreste reflejado en las historias que se encuentran en cordel. En As pelejas de Ojuara (2006) vemos la acción directa de los diablos y demonios familiares, que tanto ayudar comodificultan el camino del héroe del noreste.En este artículo, buscamos presentar cómo los demonios familiares se acentúan como facilitadores de latrayectoria del héroe, en contra del sentido comúnmente atribuido al diablo. Para eso, a partir de los estudios de Pontes (1979), Souza (2009) y Muchembled (2001), entendemos cómo el diablo tomó esta cara más suave en la cultura popular. Alejándose, de esta manera, de la dicotomía entre el bien y el mal, el diablo se acerca aún más al humano, dejando de ser la fuente de todo mal, enfatizando su ambigüedad presente en la cultura popular.

PALABRAS CLAVE: Cordel. Demonios familiares. Hibridación cultural. Nei Leandro de Castro. Cultura popular.


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PDF - P. 360-370

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