A batalha das imagens: Apropriações da ditadura no cinema português

Susana Guerra (Univ. do Porto)

Resumo


Imediatamente a seguir à revolução dos cravos (ou ao mesmo tempo que a revolução tinha lugar, em alguns casos), o cinema português releu, criticou e desconstruiu as imagens existentes do Estado Novo. Essa ressignificação das imagens da ditadura mais longa da Europa contemplava entre outras coisas: 1) a crítica do estado corporativista e das intervenções militares no ultramar pelo cinema militante, que a seguir à revolução procurou fazer do cinema uma arma de combate (Scenes from the Class Struggle in Portugal (1976), Bom Povo Português (1981), etc.); 2) as tentativas de dar um sentido às memórias traumáticas da ditadura e da guerra colonial que, a partir da década de 90, dão o tom à ficção cinematográfica mainstream (A Costa dos Murmúrios (2004), Capitães de Abril (2000), etc.); e 3) a suspensão das narrativas fechadas e das imagens consensuais pelos documentários que, nos últimos anos, trabalharam os arquivos visuais da ditadura e os testemunhos da resistência, tornando impossível qualquer relato justificador ou apaziguador (Fantasia Lusitana (2010), Natureza Morta (2005), 48 (2009), etc.). Noutras palavras, a intensidade e complexidade da batalha, ao mesmo tempo política e imagética, que no cinema português teve lugar nas últimas décadas, em ordem a apropriar-se do passado para atuar sobre o presente, não deixa de afirmar o caráter aberto e inconcluso da nossa história. O presente trabalho pretende simplesmente colocar essa batalha em perspectiva, dando conta do alcance e dos limites da imagem cinematográfica para tomar partido, fazer sentido ou exercer a reserva crítica.


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PDF - p. 94-100

Referências


PIÇARRA, Maria do Carmo. Salazar vai ao Cinema – O Jornal Português de Actualidades Filmadas. Lisboa: Minerva, 2006.

PIÇARRA, Maria do Carmo. Salazar vai ao Cinema II – A política do espírito no Jornal Português. Lisboa: DellaDesign, 2011.

ROSAS, Fernando. Salazar e o Poder. A Arte de Saber Durar. Lisboa: Tinta da China, 2013.

TORGAL, Luís Reis. Estados Novos, Estado Novo. Vol I e II. Coimbra: IUC, 2009.

TORGAL, Luís Reis. O cinema sob o olhar de Salazar. Lisboa: Temas e Debates, 2011.

VIEIRA, Patrícia. Portuguese film - The staging of the New State regime (1930-1960). Nova Iorque: Bloomsbury Academic, 2013.

Filmes:

Fantasia Lusitana. Direção: João Canijo. Portugal: Periferia Filmes, 2010, 65 min.

Natal 71. Direção: Margarida Cardoso. Portugal: Filmes do Tejo, 1999, 52 min.

Entrevistas:

http://www.academia.edu/4722058/Margarida_Cardoso_Em_Portugal_pagas_%C3%A0_equipa_e_abdicas_do_que_querias_filmar.

Entrevista de Margarida Cardoso. Acessado em junho de 2014.

http://www.dn.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1549191&seccao=Cinema.

Entrevista de João Canijo. Acessado em junho de 2014.

http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/joao-canijo-acho-que-isto-nao-tem-cura-255087. Entrevista de João Canijo. Acessado em junho de 2014.

http://www.rtp.pt/wportal/sites/tv/guerracolonial/?id=79&t=0#thumb79.

Entrevista de Margarida Cardoso. Acessado em junho de 2014.


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